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Introdução

Redigido em harmonia com os modernos princípios da sciência da linguagem, e em que se contém quási o dôbro dos vocábulos até agora registados em todos os diccionários portugueses, além de satisfazer a todas as graphias legítimas, especialmente a que tem sido mais usual e aquella que foi prescrita officialmente em 1911.

Essencialmente refundida, corrigida e copiosamente ampliada.

I - Razão da obra

A história dos diccionários da língua portuguesa, de par com alguns deploráveis documentos de insciência, de leviandade e de mera exploração mercantil, offerece á nossa admiração perduráveis monumentos de muito saber, de laboriosas e inestimáveis investigações, de honestíssimo e profícuo trabalho.

Está certamente na consciência de todos o altíssimo serviço, prestado ás letras nacionaes por Bluteau, que, lutando com a carência de trabalhos similares na sua pátria adoptiva, inaugurou brilhantemente a lexicographia portuguesa; por Moraes e Silva, cuja obra foi, relativamente aos fins do século XVIII, invejável título de glória; pelos obscuros e illustradíssimos autores do primeiro e único volume do Diccionário da Academia Real das Sciências, esmagados ante-sazão pela enormidade e pêso daquelle meritório emprehendimento; e ainda em tempos mais próximos de nós, pela clara e sisuda intelligência, que se reconhece na organização do Diccionário Contemporâneo.

Não menciono mais, porque só adduzo exemplos.

Infelizmente, todos que sabem lêr terão certamente observado que, sendo cada diccionário geralmente vazado nos moldes dos diccionários que o precederam, succedeu que a língua andou e os diccionários pararam.

E pararam, sem que ao menos tivessem conglobado em vocabulário a maior parte dos thesoiros, disseminados nos nobiliários, nos cancioneiros, nas chrónicas quinhentistas, em Gil Vicente, em Bernardim Ribeiro, em Vieira, em Filinto...

Pararam, e a esphera da linguagem foi-se ampliando successivamente, não só por effeito de numerosas derivações internas, senão também, e principalmente, pela formação e diffusão da moderna technologia scientífica, artística e industrial, pela permutação internacional de muitas fórmulas, pela febre do neologismo, e pela necessidade de dar nome a coisas e factos que nossos avós desconheceram.

Ora, desde que eu senti em mim o mofino sestro de cultor das letras, preoccupou-me e dissaboreou-me sempre a falta de um vocabulário, que me dirigisse no estudo dos mestres da língua, desde Fernão Lopes até Camillo; na applicação de milhares de lusitanismos, conservados amoravelmente pelo povo de todas as nossas províncias, mas desconhecidos dos diccionaristas; na avaliação da nossa riquíssima technologia rural, da technologia artística e scientífica; no conhecimento da fauna e da flora do nosso ultramar e até do nosso próprio continente.

Abria os diccionários menos imperfeitos ou de melhor nomeada, — O Contemporâneo, por exemplo, — e nem ao menos alli se me deparavam vocábulos de uso corrente e vulgaríssimo, como paulada, bruxedo, deferimento, saliência, caudelaria, palheiro, plagiar, plangente, granjear, prefaciar, desvirar, saguão, agrupamento, propositado, promptificar-se, reconsiderar, reproductor, ruço, têxtil, empanturrar, guerrilheiro, etc., etc.

De centenares de vocábulos, com que Vieira, Filinto e Camillo enriqueceram a sua língua, raramente se me deparava um sequer nos léxicos portugueses!

Da antiga e moderna technologia das artes e sciências rara notícia me davam os lexicógraphos nacionaes.

Da linguagem popular, privativa desta ou daquella província, tratára um ou outro literato, um ou outro folclorista; os diccionaristas, êsses não desceram da esphera da linguagem erudita, restringida, ainda assim, á quinta parte da linguagem dos eruditos.

Isto, quanto á pobreza de vocabulário. Quanto a erros de doutrina, aliás communs aos melhores diccionários, não me podiam êlles surprehender, visto como um diccionário, não obstante a maior autoridade e competência do seu autor, é o trabalho literário mais susceptível de imperfeições, e ocioso será o justificar esta these.

Por isso, embora o respeitável Moraes e outros distintos lexicógraphos errem ao definir licranço, pesebre, teiró, croca, pieira, calambrá, rocló, lacrau, baceira, cerva, maniqueira, corça, torneja, gallacrista, etc.; embora registem palavras que nunca existiram, como igarvana, garna, fomo, fangapena, marapinina, frondíbalo, etc.; embora mandem lêr adípe, (que é ádipe), alcácel, (que é alcacél), caguí, (que é çagüí, ou sagüí), mucuna, (que é mucuná), gombo, (que é gombô), etc.; embora perpetrem manifesto arbítrio e notáveis irregularidades em prosódia, tornando ora paroxýtonas, ora proparoxýtonas, palavras de formação similar, como hydrocéle, epiplócela, etc., etc., não era por esse lado que mais facilmente se justificaria o accréscimo de mais um diccionário a tantissimos que enxameiam o escasso mercado nacional; mas, sim, pela assombrosa deficiência de vocábulos ou artigos, imprescindíveis em qualquer inventário da língua nacional.

E, a êste propósito, não será ocioso memorar que muitos diccionaristas conheceram e usaram, no decurso das suas obras, expressões que não registaram no competente lugar do vocabulário, ou porque, redigindo um artigo, não souberam recordar-se dos termos que usaram noutro, ou porque, distribuida a obra por collaboradores diversos, o autor dos artigos relativos á letra A, por exemplo, não conhecia os termos de que se serviria o autor dos artigos da letra Z.

E assim é que, na grande obra de Frei Domingos Vieira, — e só me refiro aos artigos de uma letra, — debalde procuraremos pelagiano, perómelos, phene, patigabiraba, picaveco, plumbear, panarei, etc., etc. E, contudo, o autor ou os seus ampliadores conheceram e empregaram aquelles termos, ao definir marmanjo, albatroz, batrachio, benzina, côco, azerar, calhamaço, etc. No bom Diccionário Contemporâneo, inutilmente procuraremos os vocábulos assexuado, arachnidas, herva, carácias, chenopódias, spermatozoides, camomilla, gorilla, gálleas, parrochiano e parróchia, trachinídeos, decapódeos, escomberoides, avessar, termillionésimo, azaro, lóio, etc.; e contudo o autor ou os autores da obra serviram-se delles, com fundamento ou sem êlle, ao definir abelha, ácaro, alquequenje, ambeta, anserina, antherídea, anthêmis, anthropomorphos, aparinas, aparrochiar-se, aranha, astacites, atum, avessado, avo, azeredo, azulóio, etc., — e só me refiro a vocábulos da letra A.

Em taes casos, é a falta de méthodo, e sobretudo o facto ou a necessidade de muitos collaboradores da mesma obra, o que determina sensíveis lacunas, sem desabono da competência e saber de quem dirige a obra.

E todavia taes casos, embora dignos de nota, não accusam, como é de vêr, as principaes deficiências dos nossos mais estimados diccionários: as deficiências capitaes referem-se á linguagem popular, á linguagem culta, antiga e moderna, á technologia scientífica, etc., e foi especialmente neste campo que eu, durante vinte e dois annos, despendi larga parte dos meus cuidados e trabalho.

II - Materiaes da obra

Nado e criado entre as serranias da Beira, nunca achei exaggerado o parecer de Camillo, quando o celebrado escritor chamava ao povo o melhor dos nossos clássicos; e, tendo ao depois residido annos nas provincias do Doiro, do Alentejo e da Extremadura, mais se me arraigou a convicção de que o povo é realmente um grande mestre da língua, embora êlle o seja inconscientemente, e embora mui raramente o hajam consultado diccionaristas, a revêzes preoccupados de prosápias acadêmicas.

Desadorada pelos lexicógraphos, a linguagem popular mereceu-me longos e especiaes cuidados, que reverteram na colheita de mais de seis mil vocábulos e locuções que não andavam nos diccionários, mas que o povo tem guardado religiosamente por essas províncias em fóra.

É muitas vezes incerta a origem ou formação dessas expressões; mas, muitas outras vezes, ali se nos deparam preciosos lusitanismos, apropriadas dicções, e até numerosos termos, que os eruditos têm tido a ingenuidade de capitular de archaísmos!

Poderiam centuplicar-se os exemplos justificativos dêste assêrto, mas poucos bastarão. Nos escritores e manuscritos antigos deparam-se-nos expressões que os eruditos têm relegado para os domínios do archaísmo ou, pelo menos, da linguagem desusada. Taes são: claror, luxar (sujar), grossor, gerecer-se, calleja, almofia, doairo, traguer (trazer), nembro, estrancinhar (usado no Cancioneiro da Vaticana), confita, (na Eufrosina), engaço (ancinho), ceivar, orreta, gocho (nas comédias de Simão Machado), sorça (nas Lendas da Índia), adôrádo, busaranhos, (em Gil Vicente), agra, bramante (por barbante), quartapisa, seto, ril, tenreiro, gaiar, guaiar, legão, cofinho, inorar, etc. E contudo, quem percorrer as nossas províncias, sobretudo quem penetrar nos desviados rincões, donde o caminho de ferro e a concomitante civilização ainda não expungiram tudo que há de usanças e locuções avoengas, ouvirá pronunciar commummente no Algarve claror, luxar (sujar), grossor; na Beira, gerecer-se, calleja, almofia, doairo, traguer (trazer); no Minho nembro, estrancinhar, confita, engaço (ancinho); no Ribatejo, ceivar; em Trás-os-montes, orreta, gocho, sorça, adôrádo, busaranhos; em Aveiro, agra, etc. E, em quási todas as províncias poderá ouvir as dicções antigas incréu, descudar, hétigo; bellos lusitanismos como verguio; e, mormente em Trás-os-montes, puros latinismos, como hedra, por hera. Etc.

Ainda cheguei a tempo para incluir no inventário da língua nacional milhares de verbas, que àmanhan estariam sonegadas por essa insaciável cabeça de casal, que se chama civilização, o que, desculpando-se com os seus intuitos nobilíssimos, procura locupletar-se á custa de tudo e apesar de tudo.

Àmanhan seria tarde; e exceptuando o que Camillo salvou com os seus livros e o que algum devotado folclorista tem recolhido acaso, pouco ficará, entre o povo, da bôa e antiga linguagem portuguesa. Falo por experiência: há trinta annos, ainda aprendi nas aldeias da Beira numerosas fórmas de dizer, de perfeito cunho local e de acentuado sabor português; hoje, parte dellas, não as oiço por lá, e acho-as substituídas ás vezes pela gíria da cidade e pelo neologismo, ora inútil, ora tolíssimo. A locomotiva, ou antes, a locomotora, esfumou aquelles cerros e valles, e a vegetação secular vai cedendo terreno a plantas novas, entanguidas e ephêmeras...

Nem tudo porém se perderá; e, sobretudo se houver devoção para colher e archivar os numerosos provincianismos, de que, apesar dos meus esforços, não consegui tomar conhecimento e que porventura ainda vão resistindo á foice que os ameaça, a Philologia terá nelles valiosos subsídios para a história crítica da língua, e a língua poderá continuar a ufanar-se da sua excepcional flexibilidade e belleza, e do seu numeroso vocabulário, irrivalizável talvez, se o defrontarmos com o das outras línguas românicas.

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Na classificação dos provincianismos portugueses, nem sempre pude seguir uma norma absolutamente rigorosa. A um termo, que se ouve pelo menos em Mogadoiro, em Miranda ou em Vinhaes, chamei provincianismo trasmontano, sem que isso signifique que êlle é usado em toda aquella província ou que não é usado fóra della. Uma vez ou outra, — raramente, — designo a localidade, (termo de Alcobaça, termo de Coímbra, etc.), por tôr a probabilidade de que o termo respectivo só ali é usado. Também, quando chamo a um vocábulo provincianismo beirão, quero dizer que êlle é falado, pelo menos, numa das duas Beiras, (Alta e Baixa), ou até só em parte de uma dellas. Da mesma fórma, há provincianismos alentejanos, que não são conhecidos no Alto Alentejo, e outros, que os distritos de Beja e Portalegre não conhecem.

Vá isto á conta de esclarecimento, como de quem, assentando numa classificação que o não satisfaz absolutamente, não achou processo mais simples nem mais próximo da verdade.

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Mas a linguagem portuguesa não é só a linguagem popular de hoje; é também a linguagem popular antiga, e a linguagem culta, antiga e moderna.

Sôbre a linguagem popular antiga, foram-me excellentes subsídios os autos e comédias de Gil Vicente, António Prestes, Jorge Ferreira, Simão Machado; e para o estudo da nossa linguagem culta de todos os tempos, não foi sem grande assombro que eu achei, ainda inexplorados pelos diccionaristas, não só os cancioneiros e chrónicas dos primeiros tempos da nossa língua, não só Fernão Lopes e Gil Vicente, senão também os monumentos literários de Vieira, Francisco Manuel, Filinto, José Agostinho, Castilho, Latino, Herculano, Camillo, e tantos outros. Só em António Vieira, depararam-se-me mais de quatrocentos vocábulos, que eu nunca vira em diccionários. Em Gil Vicente e Filinto, mais numerosa foi ainda a colheita.

E nada desperdicei do que fui colhendo: archaísmos e neologismos, derivações violentas e até erróneas, termos de significação duvidosa ou obscura, tudo alphabetei e reproduzi, julgando cumprir um dever.

Bem sei que os menos experientes em trabalhos desta natureza hão de acoimar-me de nimiamente tolerante, com respeito a locuções injustificáveis. Mas ao diccionarista não impende o tolerar ou vedar o uso ou abuso de tal ou tal locução: o diccionarista tem, como dever capital, o reproduzir factos e interpretá-los. Se entende que um vocábulo está corrompido ou que é mal formado, se o julga neologismo inútil ou disparatado, consigna o que entende, mas regista o vocábulo.

Os próprios mestres têm extravagâncias, que ao diccionarista não é lícito expungir. Vejam o manti-costumes, o mil-lindo, o mil-gamenho, o mulhermente de Filinto, o lucreciamente de Camillo, etc.

Mas onde a crítica fácil mais convictamente me alvejará é na inscripção, que eu faço, de gallicismos intoleráveis. Não alongarei justificações, afóra o que dito fica sôbre a missão do consciencioso diccionarista; mas apraz-me notar que, embora a francesia e o barbarismo em geral não sejam defeitos vulgares em livros meus, eu nem sempre condemno o estrangeirismo que não pratíco. Por uma consideração: é que nós não sabemos se o gallicismo, hoje intolerável, será àmanhan palavra portuguesa e, como tal, fará parte do thesoiro da língua.

E esta incerteza é confirmada pela história. Raro será o clássico, antigo ou moderno, que não tenha perpetrado gallicismos, passando êstes ao domínio da língua. Basta citar garção, abrevar, minhão (pequeno), mancar (faltar), etc.

Um purista, que vivesse há quatro ou cinco séculos, devia sentir ondas de indignação, quando visse começar a usar-se libré, arranjar, ferrabrás, marau, freire, grifa, genebra, bilhete, betarraba, besonha, febre (adj.), petigris, poteia, poterna, abreuvar, assembleia, petimetre, grelo, gaio (alegre), gage,greu, moéla, gredelém, etc., porque todas essas palavras eram puras francesias; hoje... são portuguesas. ¿Quem sabe o que succederá aos mais intoleráveis gallicismos de hoje?

E possível que os alludidos neologóphobos abranjam na sua phobia o registo, que eu faço, de muitos centenares de termos de gíria, como estranhos á linguagem othodoxa e grave dos pontífices literários. Aos taes bastará ponderar que não há pontífice literário que inflija excommunhão maior ao vocabulário da gíria, porque está relacionado por muitos vínculos á linguagem geral, offerece por vezes o facto notável de derivações erudítas e tanto se abeira amiúde da linguagem popular, que se torna diffícil traçar a divisória.

Estão neste caso as cangalhas (óculos), catrafilar (prender),estalo (bofetada), esticar (morrer), massa (dinheiro), penante (chapéu), pireza (fuga), refilar (reagir), tóla (cabeça), valente (alavanca para arrombar), etc., etc.

Accrescentando-se que os diccionaristas e philólogos, como Bluteau, Diez, Cornu, Schuchardt, Michel, e muitos outros, têm dado ao calão ou gíria a importância que os ingênuos poderão negar-lhe, nada mais opporei aos reparos, com que, a propósito de gíria, foram recebidas as primeiras fôlhas desta obra por um ou outro crítico inoffensivo e anónymo.

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Não se limitam os meus estudos e investigações á linguagem escrita e falada no continente português: — Explorei também a linguagem popular dos archipélagos açoreano e madeirense; e, detendo a attenção na linguagem vulgar entre os Portugueses das nossas possessões ultramarinas, realizei larga colheita de expressões locaes, concernentes a usos, costumes, administração pública, vestuário, ceremónias e crenças indigenas de Angola, Moçambique, Estado da Índia, Macau e Timor.

Mas o português não é sómente a língua de Portugal e das suas possessões: fala-o uma grande nação, que se emancipou da nossa velha soberania, mas que não enjeitou o idioma, com que levámos a civilização europeia aos sertões da América do Sul.

Succede porém que o português do Brasil não é precisamente o português europeu: recebeu numerosos termos da população indígena, e o tupi entrou como elemento constituinte no organismo da moderna linguagem brasileira. Ora, desde que um diccionário é destinado a todos os povos que falam português, não póde prescindir dos termos brasílicos, que são inseparáveis da linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico.

Consultei portanto vocabulários brasileiros; li poétas, romancistas, críticos e grammáticos daquella nação; falei pessoalmente com muitos brasileiros, e, de todas estas diligências resultou para êste Diccionário o registo de mais de sete mil brasileirismos, que nunca haviam entrado em diccionários da língua portuguesa.

Note-se entretanto: nem todos os termos, a que eu apponho a nota de brasileirismos, e que como taes são considerados pelos mais conspícuos vocabularistas, como Beaurepaire-Rohan, provieram dos tupís ou fôram criados por brasileiros. Muitos dêlles são velhos portuguesismos, que partiram daqui com os descobridores e colonizadores das terras de Santa-Cruz, e que lá vivem e prosperam ainda, sendo aqui já esquecidos ou mortos. Assim é que a conjunção si que, no português, é hôje privativa do Brasil foi usada por clássicos nossos; usou-a, por exemplo, Garcia da Orta, nos seus Collóquios. O vocábulo perendengues, se não partiu de cá, foi de lá recebido há muito e entrou no português dos mestres; usou-o Filinto, pelo menos. A geriza, o agir, o faneco (pedaço de pão), a alfafa ou alfaifa, o guaiar, etc., são bons e velhos vocábulos portugueses, de que nós nos esquecêmos quási, mas que os Brasileiros, para vergonha nossa, sabem alimentar e prezar. Sob êste ponto de vista, a inscripção de muitos vocábulos brasileiros equivale, creio eu, á rehabilitação pública de alguma coisa, injustamente comdemnada pela ingrata pátria...[1]

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Para a inscripção da technologia scientífica, de pouco me valeram os lexicógraphos portugueses que escreveram antes de mim.

A tal respeito, foram sempre vulgares as queixas de professores e estudiosos contra a falta de um vocabulário nacional, que comprehendesse com alguma largueza a technologia mais corrente entre os homens de sciência.

Dei-me ao trabalho incalculável de estudar nas fontes respectivas a technologia botânica, geológica, anatómica, philosóphica, médica, chímica, radiográphica, etc.; e muitas vezes, á mingua de competência encyclopédica, tive de me soccorrer da competência e obsequiosidade de muitos dos nossos mais notáveis homens de sciência, aos quaes se deve certamente o melhor quinhão nos serviços que êste livro possa prestar aos estudiosos de technologia scientífica.

Confessarei, sem hesitar, que uma das sciências, em que se me depararam maiores dificuldades, foi a Botânica geral: — Num diccionário da língua, ¿até onde deveria chegar o registo dos seres vegetaes, dos seus órgãos e dos seus phenómenos biológicos? A quem deveria eu seguir nas classificações do reino vegetal? Linneu? De-Candolle? O Congresso de Paris de 1867?...

Pela sua importância collectiva e scientífica, aquelle Congresso impunha-se-me naturalmente com as suas decisões; mas a classificação que propôs, — classe, sub-classe, cohorte, sub-cohorte, ordem, sub-ordem, tribo, sub-tribo, gênero, sub-gênero, secção, sub-secção, espécie, sub-espécie ou prole, variedade, sub-variedade, variação, sub-variação, planta, — além de se me figurar um tanto casuística, obrigar-me-ia a minúcias pouco compatíveis com a precisão, simplicidade e clareza que me cumpria observar; e assim, reduzindo todos os graus daquella classificação ao menor número possível sem offensa da sciência, acostei-me á simples e clara taxinomia das familias, tribos, gêneros e espécies.

No que eu respeitei, quanto pude, o referido Congresso, foi em preferir a terminação áceas á terminação ídeas, íneas, íceas, etc., ao designar famílias vegetaes: amomáceas, em vez de amómeas;lauráceas, em vez de lauríneas; rhamnáceas, em vez de rhâmneas; myrtáceas, em vez de myrtíneas, etc., respeitando embora as fórmulas consagradas das gramíneas, leguminosas, labiadas, etc.

Mas não eram simplesmente taxinómicas as difficuldades que a Botânica me oppunha: provinham também da amplitude numérica, que, num diccionário da língua, se deveria dar aos gêneros e espécies do reino vegetal.

A tal ponto se tem desenvolvido há um século o estudo da Botânica que, não sendo conhecidos ainda 2:000 gêneros em tempo de Jussieu, (fins do século XVIII), o número dêlles sobe hoje a mais de 8:000, segundo o cálculo de Ducharte; e orça-se em 600:000 o número das plantas actualmente conhecidas! Há cincoenta annos, em tempo de Lasegues, nem 100:000 se conheciam aínda.

É verdade que muitos milhares de plantas aínda não perderam a sua designação exclusivamente scientífica e difficilmente se adaptariam dêsde já á nossa linguagem vulgar; mas muitíssimas há, cujo nome é perfeitamente romanizável, como outras há, em que a designação vulgar e a scientífica precisamente coincidem, tão estreito é o parentesco entre o português e o latim.

Occorri á difficuldade, conciliando, quanto em mim coube, a conveniência, se não necessidade, de enriquecer um diccionário da língua com um amplo onomástico botânico, e a impossibilidade de realizar nesse diccionário o que aínda não conseguiram os próprios vocabularistas botânicos.

E assim, quanto á Botânica geral, registei com inusitada amplidão o onomástico das famílias e dos gêneros, e só me detive nas espécies que se recommendam pelas suas qualidades medicinaes, ornamentaes, etc.

Quanto porém á Botânica portuguesa, continental e colonial, e quanto á Botânica brasileira, tudo me aconselhava que registasse quanto as minhas investigações me deparassem.

Neste ponto, e ao passo que noutros diccionários só se havia dado plausível attenção à Botânica europeia, tive a satisfação de trazer para a lexicographia numerosíssimas espécies da nossa flora africana, asiática e oceânica, bem como da flora brasileira. No Museu da Sociedade de Geographia, nos jardins botânicos da Escola Polytéchnica de Lisbôa e da Universidade de Coimbra, nos livros de Garcia da Orta, Capello e Ivens, Serpa Pinto, Sisenando Marques, Stanley, Henrique de Carvalho, Levingstone, Ficalho, Lopes Mendes, Pedroso Gamito, Dalgado, e outros, pude colher notícia de muitos centenares de espécies vegetaes, que ainda hoje valorizam o nosso império colonial e que, pela primeira vez, enriquessem agora um diccionário da língua; e, para o largo registo que faço da flora brasileira, de muito me serviram os largos de estudos do Dr. Caminhoá, de Del-Vecchio, de Araújo Amazonas, de Brás Rubim, de Beaurepaire-Rohan, etc.

Na própria Botânica do nosso país, e não obstante o muito que já lhe consagraram outros diccionários, tive ensejo de reconhecer, pelos livros dos nossos ampelógraphos, pelos relatórios dos agrónomos, pelos jornaes de agricultura e pelo trato directo com a gente do campo, que muitos frutos e muitíssimas espécies de plantas úteis ainda não pertenciam á lexicographia, tendo eu que registar mais de 1:500 variedades de videiras, e numerosos frutos, que entraram há muito na linguagem do povo e que só agora entram no vocabulário português.

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Na parte scientífica do meu léxico, não foi sómente a Botânica o que me abriu campo extenso e diffícil: a Chímica não me offerecia muito menores difficuldades.

Relendo livros e consultando professores, também me surgiam hesitações sôbre o ponto até onde deveria estender-se o registo da nomenclatura chímica num diccionário da língua. Depois de haver colhido nesse campo muitíssimo mais do que os meus confrades em lexicographia, suspendi a colheita quando conheci a impossibilidade ou a desnecessidade de proseguir. Foi quando vi que os chímicos, lutando com a difficuldade de designar um composto por uma palavra normalmente organizada ou derivada, formavam de muitos elementos um só termo, que só poderá quadrar ás altas especulações scientíficas ou ás memórias secretas dos laboratórios. Para um diccionário, pareceu-me inútil, se não muito estranhável, aproveitarem-se fórmulas como esta: paranitrophenyldehydrohexonecarboxýlico; ou como esta: oxyditrichloroethylidenadiamina.

Quando muito, vocábulos com dimensões análogas, só me aventurei a registar a pentadecylparotolylcetona, pela sua estreita relação com a radioscopia; phenylhydroquinazolina, e pouco mais.

E não foi só a exagerada complicação das fórmulas adoptadas recentemente pelos nomencladores chímicos o que fez sustar o passo nas minhas excursões por aquella província do saber humano; foram também, não direi o abuso, mas o arbítrio, com que a pharmacologia de hoje se dá ao apparatoso luxo de inventar vistosos rótulos para os seus productos, á custa da Chímica e da Pathologia.

Entretanto, pelo esfôrço próprio e pela cooperação de alguns dos nossos mais notáveis homens de sciência, consegui registar largamente a nomenclatura chímica, em visível desproporção com o que até agora, e a tal respeito, se tinha feito em trabalhos congêneres.

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Com a Entomologia, vi que se davam factos análogos. Se eu me despreoccupasse de outras considerações e attendesse exclusivamente ao plausível intuito de registar vocábulos que não há noutros diccionários da língua, ampliaria desmedidamente a colheita que fiz naquella especialidade scientífica. Tenho effectivamente ao meu alcance os nomes de milhares de insectos, nomes que eu não registo, não só porque o bom senso e a lexicologia estabelecem limites entre um diccionário da língua e um diccionário especial, senão também, e principalmente, porque procurei dar ao meu trabalho a possível unidade e refugir ás desproporções, de que enfermam outros léxicos, nomeadamente, a meu vêr, o grande diccionário de Larousse.

E, contudo, nenhum diccionário português apresentou ainda tão copioso vocabulário entomológico, como o diccionário que estou prefaciando.

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Em Ornithologia, consegui refundir lexicographicamente o respectivo vocabulário, não só ampliando com centenares de variedades o registo, por outros feito, das aves portuguesas, mas também dando dellas noção mais exacta, do que aquella que até hoje podiamos adquirir pelos diccionários.

E, de facto, é vulgaríssimo vermos definidos, como nomes de animaes diversos, o gaivão, o zirro, o pedreiro, o guincho, o ferreiro, o andorinhão, o arvião, o catavento; quando, afinal, eu pude verificar que todos êsses nomes, — cada qual em sua província ou localidade, — são dados á mesma ave, o gaivão, embora um ou outro sirva excepcionalmente para designar, ao mesmo tempo, outra ave.

O mesmo succede com o abibe, cujo nome varía de região para região, podendo nós, se percorrermos o país inteiro, ouvir que lhe dão os nomes de bibes, víbora, abesconhinha, avetoninha, ave-fria, gallispo, matoninha, verdizella, choradeira, galleno, coím, donzella-verde, galleirão, avecoínha, còninha; além de que, na Madeira, esta ave tem os nomes de bibi, bisbis, guizinho, melrinho-das-urzes, melrinho-da-serra, melrinho-dos-pereiros, pintasilgo-derrabado.

E mais extraordinária é ainda a megengra, que, variando o nome, segundo as localidades ou regiões, chega a reunir os seguintes nomes: chapim, cedovém, patachim, pinta-caldeiras, fradisco, fura-bugalhos, ferreiro, mezengro, parachim, cachapim, papa-abelhas, chincharavêlha, fradinho, semeia-linho, chinchinim, caldeirinha, rabilongo!

Êstes e outros factos análogos, facilmente verificáveis, dão-me a persuasão de que a parte ornithológica desta obra revela os devidos escrúpulos, o possível rigor, e sensíveis melhorias na lexicographia nacional.

O autor, neste caso e em casos semelhantes, não fala por vaidade nem faz alarde de serviços e méritos: julga cumprir um dever, historiando os seus processos e o seu trabalho, para auxiliar o leitor no conhecimento e avaliação da obra. Contraprovadas por êste as allegações e os factos, fica-lhe o pleníssimo direito de julgar a obra como lhe aprouver. Mas, antes que a julgue, requeiro que me oiça.

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A Ichthyographia e a Conchyliologia também me facultaram importantes acquisições lexicológicas, por intermédio dos autorizados estudos de Felix Capelo, Barbosa du Bocage, Baldaque da Silva, A. Girard e muitos outros.

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Mais importantes ainda fôram as contribuições que eu devo á Anatomia, á Medicina geral e, especialmente, á Ophtalmologia, á Psychiatria, á Homeopathia, á Electrotherapia, etc.

Os mais conspícuos especialistas nestas sciências distinguiram-me com as suas luzes, com os seus livros, com o seu carinhoso auxílio, o que me autoriza a affirmar que em nenhum diccionário português essas sciências lograram ainda tão largo espaço como na presente obra.

O mesmo se póde dizer da Radiographia, da Veterinária, da Agricultura, da Geologia, da Architectura, das indústrias fabris, da Náutica antiga e moderna, da Pedagogia, da arte militar, da Velocipedia, do Espiritismo, dos offícios mecânicos, da Jurisprudência, das antiguidades gregas e romanas, da Ethnologia, dos jogos, danças, e usos populares, etc., etc.

Procurei não omittir os mais recentes descobrimentos em qualquer esphera da actividade humana, — o cinematógrapho, a icérya, o radioscópio, a melinite, o acetylene, e tantíssimos outros; e, dando ao meu trabalho feição sensívelmente encyclopédica, obedeci ao propósito de basear em novos processos uma obra que, não podendo têr tudo, tivesse ao menos alguma coisa de tudo e de novo.

III - Processo da obra

Reunidos os materiaes através de duas dezenas de annos e á custa de incompensáveis fadigas, dois caminhos se me antolhavam: — Organizar um desenvolvido diccionário que poderia abranger seis a oito grossos volumes; ou synthetizar aquelles materiaes no mais limitado espaço.

Na primeira hypóthese, seria mister um editor arrojado, se não temerário, o que é raro; e ao autor, seria mister vida longa, o que é ainda mais incerto. Aventurei-me á segunda hypóthese, e nem por isso foi menos arrojado o meu saudoso amigo e honradíssimo editor[2], que não hesitou em jogar sôbre o meu trabalho uma dezena de contos de réis.

Uma condição me impôs apenas: reunir todos os materiaes, colhidos por mim, a tudo que os outros diccionários tivessem de aproveitável, e organizar uma obra, cujo preço a não tornasse incompatível com os recursos pecuniários da maioria do público que lê.

Daqui a índole visivelmente sinthética do Novo Diccionário. A quem ella não aprouver bastará ponderar que uma sýnthese em dois grossos volumes só por convenção se chama sýnthese e corre já o perigo de exceder a condição do editor e as intenções do autor.

Obedecendo a estas e àquella, na redacção primitiva do Diccionário não havia sequer uma citação de autor ou de obra estranha. Por êsse lado todavia, — e só por êsse lado, — senti não têr de recomeçar a obra, porque reconheci a conveniência de justificar com uma autoridade o registo de tal ou tal vocábulo, de tal ou tal accepção.

Era tarde para voltar atrás, e seria quási impossível recordar, entre centenares de livros, o livro e a página que contribuiu para o meu vocabulário.

Como porém um triste successo retardou por dois annos a publicação da obra, e como até hoje nunca cessou a colheita de novos vocábulos e novas accepções, pude remediar o que era remediável, e, nas novas colheitas, pude justificar com citações succintas o registo de um ou outro vocábulo, de uma ou de outra accepção.

A linguagem não é inventada pelos diccionaristas: falada ou escrita, registam-na, e deixam a responsabilidade della aos que a criaram.

Mas há circunstâncias, em que a menção de um vocábulo poderia sêr apodada de destempêro pelos leitores mais inclinados á maledicência do que á justiça.

Assim, quando eu registo um barbarismo inútil ou um neologismo ousado, a crítica fácil poderia suppor que eu inventei, ou que perfilho, como escritor, a novidade, se eu não lançasse o termo á conta alheia, citando o inventor ou o patrono. Estão nêste caso os neologismos mesmice,desenfechar, e tantos outros.

Da mesma fórma, se eu registasse os advérbios mulhermente, lucreciamente, lapantanamente, o substantivo manticostumes, o adjectivo minotaurizado, difficillissimo, digressoar, dormitólogo, donairíssimo, fósmea, flavibico, clystermente, etc., e não mostrasse logo que essas originalidades são da responsabilidade de Filinto, Camillo, etc., poderiam suppor ingênuos que eu estava brincando com quem me lê[3].

Por outro lado, colligi numerosos vocábulos, cuja significação não resalta do texto em que se me depararam. Claro é que, em tal hypóthese, o processo preferível é registar o vocábulo e citar o texto respectivo, para que os leitores o interpretem, se puderem.

Muitas vezes, se não quási sempre, as referências a obras alheias levam a indicação do tomo e página respectiva, não só para se facilitar a contraprova ao leitor escrupuloso, se não também e principalmente para obviar ás supposições gratuitas de críticos praguentos e mal intencionados, que, julgando por si os mais, admittem a possibilidade de que qualquer escritor tenha a improbidade de inventar citações por conveniência própria.

É verdade que, em muitos casos, a obra citada teve duas ou mais edições, e é diversa a paginação destas, difficultando assim o cotejo. Em todo caso, a difficuldade não é impossibilidade; importa apenas algum trabalho para o crítico mais minudencioso, por têr de consultar diversas edições da mesma obra.

Excepcionalmente, cito uma ou outra locução sem indicar as fontes escritas, porque a recebi da linguagem oral ou dos registos avulsos e dispersos do falar do povo, como as canções populares, os prolóquios, etc.

*       *       *       *       *

Seguindo bons exemplos, — e bastar-me-ia o de Littré, — registei, a par do vocabulário português, alguns vocábulos e locuções que pertencem a outras línguas, mas que são, mais ou menos commummente, usados e, em geral, necessários em nossa linguagem falada e escrita. Taes são deficit, Te-Deum, item... Tive porém o cuidado de os preceder da indicação de alheios ao português e de indicar a língua a que pertencem, para que, ao escreverem-se, sejam devidamente sublinhados ou griphados, não vá alguém confundi-los com o que é lidimamente nosso.

*       *       *       *       *

Há toda a conveniência, e de bom grado a subscrevo, em que se annotem de archaísmos os termos que se afastam da linguagem commum do nosso tempo e da prática dos mestres contemporâneos. Reconheço porém a difficuldade de, em muitos casos, capitular de archaico um termo que, pela primeira vez, nos occorre em documento antigo. Nenhum de nós, os que escrevemos, conhece metade dos termos da sua língua, e, como já notei, muitos julgarão archaico um vocábulo, que só vimos usado em escritores quinhentistas ou pre-quinhentistas, e que póde deparar-se-nos acaso no uso corrente de alguma região portuguesa, e até na escrita de algum escritor moderno.

Entretanto, não poupei a nota de antigos ou de simplesmente desusados aos vocábulos que me parecem não têr chegado ao uso do nosso tempo ou, pelo menos, aos escritores portugueses do último século.

Essa nota porém não quere dizer que todos êlles sejam pertença exclusiva de épocas findas e que não possam nobilitar e enriquecer a escrita moderna, embora a adaptação dependa de muito bom senso, alguma autoridade, e de opportunidade sempre. Succede, até, que muitas expressões, realmente de cunho antigo, tendo pertencido a usos e instituições que passaram, hão de necessariamente empregar-se ainda hoje, sempre que tenhamos de nos referir a essas instituições e usos.

Temos disso copiosos exemplos em Herculano.

A simples indicação, que eu faço a revêzes, de que um vocábulo é gallicismo, significa que a palavra proveio directamente do francês, o que não implica a sua condemnação em nome da vernaculidade portuguesa; podem arrecear-se della os puristas, mas nada prova que ella não possa consubstanciar-se, ou não venha a consubstanciar-se, no corpo da nossa língua.

Há gallicismos de gallicismos: e, quando êlles se me afiguram inúteis, violentos ou disparatados, inscrevo-lhes ao lado o cave canem do prudente aviso.

Quanto á disposição das várias accepções de cada vocábulo, segui, ás vezes, o processo da Academia Francesa, dando o primeiro lugar á accepção mais vulgar ou conhecida, quando a accepção primitiva é inteiramente obsoleta, e deixando esta para o fecho do artigo. Em regra, porém, e de acôrdo com os mais autorizados lexicógraphos, dou o primeiro lugar á accepção natural ou primitiva, consignando sucessivamente a extensiva e a figurada, quando para um vocábulo há variedade de accepções.

IV - A orthographia

A orthographia, que, para os antigos padres-mestres, era uma parte da grammática, está reduzida actualmente a um intricado e curioso problema.

Àparte meia dúzia de eruditos, que tomam o assumpto a sério, a generalidade dos nossos escritores modernos observam a orthographia que lhes ensinaram ou aquella a que se habituaram, preoccupando-se mediocremente com a razão do que escrevem.

Todos os escritores estão convencidos de que orthographam bem e, entretanto, cada qual ortographa de sua maneira. Como descargo de consciência, suppõem praticar a orthographia usual. A orthographia usual reduz-se á orthographia de cada um, o que dá em resultado cem ou duzentas orthographias differentes e quási todas autorizadas.

Officialmente, considera-se modêlo a orthographia do Diário do Govêrno. É verdade que o próprio Govêrno, isto é, os ministros, só a praticam nas columnas da mesma fôlha; cá fóra, praticam o que lhes ensinou o professor de primeiras letras, cuja orthographia já brigava com a do professor da vizinha escola.

O uso dos doutos é outro bordão, que de nada serve porque o uso dodouto Garret não é o uso do douto Herculano; o uso dêste não é o de Castilho; o de Castilho não é o de Latino, e assim por deante. Lembremo-nos de que Herculano escreveu outomno e Castilho outono; Camilo graphou filósopho; Garret usava mattar, cinquenta, fummo, entrehabrir, e outras extravagâncias do mesmo gênero.

Êste facto, só o não vê quem fôr cego de vontade.

De maneira que os diccionaristas, julgando que tem igual direito ao dos outros escritores, escrevem geralmente como entendem, condemnando implicitamente todas as fórmas divergentes.

Consequência: lemos glycose e ouro num livro, procuramos êstes termos num diccionário, e não os topâmos porque o diccionarista escreve glucose e oiro. Ou vice-versa.

Ora, o diccionarista não tem o direito de escrever somente como entende. A sua missão não é preconizar systemas, nem fazer reformas, nem manter intolerantes exclusivismos. Àparte os termos que êlle só conhece de outiva ou que colheu da linguagem oral, e que tem de reproduzir phoneticamente, se a etymologia, a a derivação, ou a analogia lhe não aconselham outro processo, todos os vocábulos que êlle viu escritos, sob a responsabilidade de um escritor antigo ou moderno ou sob a chancella da prática corrente numa época, tem de os reproduzir taes, quaes os viu; e, se a fórma varía de escritor para escritor ou de época para época, essas variantes devem fazer parte do seu trabalho, sob pena de sensíveis imperfeições ou de lastimosas deficiências.

*       *       *       *       *

Por isso é que o leitor encontrará nesta obra numerosas variantes autorizadas; e nem de outra fórma o Diccionário reproduziria, como deve, o estado actual da escrita portuguesa. Veja-se idéa e ideia,pae e pai, philósopho e filósofo, ouro e oiro, distincto e distinto, escripto e escrito, lyra e lira.

Claro é que, entre duas ou mais variantes de um termo, tenho de pôr na primeira plana, para o effeito da definição ou do significado, a fórma que tem por si o uso mais geral, excepto quando tal uso é diametralmente opposto ás regras e aos preceitos da sciência da linguagem, como em civilisar, portuguez, atraz, atravez, etc.

Portanto, as convicções do autor sôbre orthographia portuguesa retrahem-se nesta obra, para dar lugar ás convicções da maioria do público ledor e ás praxes mais geralmente seguidas. Aliás, poria êlle na última plana, se as não expungisse inteiramente, todas as fórmas orthográphicas, em que apparece o inutilíssimo y, o prejudicial ch por c ou q, o falso ph, o falso th, as consoantes geminadas, e todas as convenções que, sem valor scientífico, só servem para difficultar a extincção do analphabetismo e tornar a escrita portuguesa um privilégio de sábios.

Mas o Diccionário é o que deve sêr: reproducção de factos e não tribuna de reformador.

Se me estimulassem prurídos de reforma, e se esta obra não fôsse um Diccionário da Língua, eu diria a todos que escrevem: — «Sêde embora etymologistas, mas sêde-o como a Itália e a Espanha, que, possuindo os idiomas mais irmãos do nosso, simplificaram a sua orthographia, uniformizando a sua escrita e facilitando o conhecimento da língua; e vereis como as crianças e os estrangeiros aprenderão facilmente a lêr: física..., filosofia..., corografia..., teatro..., liceu..., química..., iguais..., cadela..., retórica...»

Mas isto são assumptos infinitamente pequenos, no conceito geral da nossa oligarchia literária. Consola-me, porém, a resignação do velho Moraes que, preambulando o seu Diccionário, já ponderava, como bom conhecedor da sua terra:

— «Quanto á Ortografia que segui, declaro altamente, e de bom som, que na maior parte a sigo contra o meu parecer, e porque assim o querem. Eu sou pela Ortographia Filosófica, a qual, fundada na analise dos sons proprios, ou vogaes, e na de suas modificações, pede que a cada um se dê um só sinal, ou letra privativa, distinta, e que não represente nenhum outro som ou consoante. Deste voto eram João de Barros, o célebre Duclos, e o immortal Franklim... cujos nomes aponto para confusão dos que não valem tanto como estes...» —

E, já antes de Moraes, o audaz e superior espírito do grande Luís Antonio Verney reconhecia a improficuidade dos seus esforços em tornar simples e racional a complicada, e por vezes absurda, orthographia acadêmica. Dizia êlle:

— «...isto de emendar o mundo e principalmente o querer arrancar certas opiniões do animo dos homens envelhecidos nellas e consagradas já por um costume de que não há memoria, é negócio que excede as forças de um só homem...» —

E o Padre António Vieira sentenciava:

— «Quem entra a introduzir uma lei nova não póde tirar de repente os abusos da velha.» —

Quando humanistas e lexicógraphos da craveira de Verney e Moraes recuavam perante o colosso da rotina e da indifferença, ¿de que valeriam os meus esforços a favor da possível simplificação orthográphica, embora estribados no saber e na convicção dos poucos que, entre nós, logram incontestável competência em matérias philológicas?

A muito me aventuro eu, dando o lugar de fórmas permittidas, e até plausíveis, a graphias que poderão indignar a ingênua e pacata rotina; e a muito mais desejava que eu me aventurasse a notabilíssima escritora europeia, glória nossa e da sua terra, a Senhora Michaëlis. Folgaria ella de que eu registasse as variantes opostas ao uso das consoantes geminadas: elipse, ela, aquela, nulo...

Muitas registei de facto, mormente aquellas em que a geminação provém convencionalmente da assimilação de uma consoante de prefixo, como ofício, oferecer, aparecer, suceder, acumular, etc.; mas registá-las todas sería duplicar a extensão da obra; e a necessidade dêsse registo fica attenuada desde que se consigne, em nome da sciência e do bom senso, que não é êrro evitar systematicamente a duplicação das consoantes, quando não sejam r e s.

E, depois, a eliminação das consoantes geminadas não me parece dos desideratos mais instantes para a racional simplificação da escrita, visto como, phoneticamente, tanto valem dois ll, dois pp, como um só[4].

*       *       *       *       *

Pela natureza especial da obra e pela difficuldade, se não desnecessidade, de se fazerem de uma vez todas as convenientes ou necessárias correcções na escrita mais usual, é esta a que o autôr do Novo Diccionário observa geralmente no decurso da sua obra; e a tal ponto reconhece a improficuidade das reformas precipitadas e o afêrro do seu país a rotinas, ainda as mais absurdas, que a pesar seu e contra os ditames da sciência, regista e deixa passar sem indignação muitas fórmas que a Philologia condemna, como geito em vez de jeito, sapato em vez de çapato, sarça em vez de çarça, salameleque em vez de çalameleque, grasnar em vez de graznar, etc., etc.

Sobretudo o ç inicial, embora sensatamente adoptado pelos nossos mestres antigos para os casos em que a sciência o impõe, como nos casos alludidos, não é melhoria que possa vingar já, taes são os calefrios que êlle desperta nos amoucos da rotina inconsciente.

Outras reformas há porém que, baseadas na sciência e na índole da lingua se vão enraizando já, com aprazimento de quantos se interessam pelo lustre da nossa língua. E assim é que, em livros das escolas públicas, em documentos officiaes e sobretudo em revistas e livros, organizados por quem não seja estranho ás noções scientíficas da língua, vemos já ir-se dilatando o uso de escrever, como se deve, português, francês, quís, mês, Luís, atrás, através, país, açucar, muçulmano..., em vez das fórmas explicáveis, mas não justificáveis, musulmano assúcar, paiz, atravez, atraz, Luiz, mez, quiz, francez, portuguez...

Como não escrevo grammática, nem faço aqui um tratado de Philologia, não ampliarei desmedidamente esta palestra, consignando os fundamentos daquellas rigorosas fórmas, aliás tão velhas como o português, em quanto as contrárias se baseiam em costumeiras, as mais velhas das quaes não têm dois séculos e foram determinadas pelo mais absoluto desconhecimento da sciência da linguagem, pela pobreza de notações typográphicas, e pela indolência ou idiosyncrasia de uma nação, que, entre as nações que se dizem cultas, é das raras, que ainda não consideram a accentuação gráphica elemento imprescindível da orthographia.

Taes assumptos estão amplamente tratados noutros livros, e até, embora succintamente, têm merecido especial consideração em livros meus. Neste Diccionário, a correcta escrita de cada vocábulo está implíctamente aconselhada na respectiva indicação etymológica. Porque a etymologia, á parte os casos em que a desconhecemos, a história da língua e a fórma que, em línguas irmans, se dá a vocábulos de fonte commum a outros nossos, são seguros recursos de quem deseja escrever como deve. A simples autoridade de qualquer escritor, ainda o mais eminente, e o râncido argumento do uso, só poderão prevalecer, quando escasseiem aquelles recursos.

Para os tratados especiaes remeto pois o leitor menos affeito a taes assumptos, e hesitante ainda em quaesquer hypótheses orthográphicas.

Abro porém uma excepção, visto como esta obra vai parar a muitas mãos, que só folhearam algum compêndio escolar e que não podem folhear todas as obras que se têm escrito com mais correcção, nem os livros e dissertações, que já temos em nossa língua sôbre questões philológicas.

Refiro-me pelo menos a metade, se não á maioria, de um milhão de Portugueses, isto é, àquelles que logram a fortuna de escrever o seu nome e lêr por alto... Desde o Méthodo Facillimo, que lhes deram na escola, até o Almanaque do Lavrador, que lhes aponta as phases da lua, e até o periódico que diz mal do Govêrno e lhes recommenda um candidato a legislador, leram sempre portuguez e portugueza, e admiram-se ingenuamente de receber um Diccionário, que lhes fala da língua portuguesa.

É para êsses meus ingênuos compatrícios que eu vou trasladar para aqui o que, a tal propósito, deixei escrito noutro livro meu:

*       *       *       *       *

— «Portuguez e português são duas variantes da mesma palavra. Ora, entre duas variantes, naturalmente me inclino para a que se baseia na sciência, reforçada pelas tradições e pelo bom senso.

Portuguez é ainda fórma generalizada, e autorizada pela prática de alguns mestres, que nunca se preoccuparam de Philologia, até porque esta sciência póde dizer-se que nasceu há dois dias; mas é uma fórma puramente convencional. E direi porquê.

Os nossos velhos clássicos, como as typographias do seu tempo eram ainda mais pobres que as de hoje em accentos gráphicos, escreviam, um pouco á espanhola, frances, ingles, portugues. Viu-se porém que a orthoépia não correspondia á graphia, e notou-se que o z final costumava fazer agudas ou oxýtonas certas palavras: feliz, apraz, viuvez, arroz...; e, em vez de se recorrer aos accentos gráphicos, recorreu-se ao z para os substituir, introduzindo-se em palavras que nunca os poderiam têr legitimamente: Pariz, Thomaz, quiz, poz, inglez, portuguez...

Demonstra-se facilmente que estas e outras palavras, escrevendo-se como manda a sciência da linguagem, não têm z, mas, sim, s. Restringindo-me porém a portuguez, não dou novidade, ponderando que todas as palavras têm a sua evolução, a sua história. Aquellas, cuja história é obscura ou desconhecida, e aínda algumas, cuja história foi completamente pervertida pelo uso popular, escrevemo-las como as pronunciamos; mas o maior número dellas, visto que lhes conhecemos o berço, temos que tratá-las consoante os seus títulos e genealogia.

Toda a gente saberá que Portugal deu primitivamente o adjectivo e substantivo portugalense, como Brácara deu bracarense, Conímbrica conimbricense, Ebora eborense, Setúbal setubalense...

A phase immediata da evolução de portugalense, pela lei glottológica do menor esfôrço, sería portugalens, que, por contracção, veio a dar portugalês.

Ora, a quéda de certas consoantes mediaes é phenómeno averiguado na evolução da linguagem românica; assim, de médio saiu meio; de videre saiu vier, veer, vêr; de malo saiu máo, mau; de coelo saiu céo, céu; de portugalês saiu portugaês > português.

Vejam se, nesta odysseia de séculos, o português achou algum z no seu caminho.

Não achou. O z que lhe appuseram é uma intrusão, um arrebique convencional, que tería desapparecido há muito, sem deixar saudades, se os nossos escritores tivessem tido a pachorra de pensar dois minutos no caso, e no bom senso de Alexandre Herculano que, na sua História de Portugal, e contra o uso dos seus contemporâneos, á excepção de Rodrigo Felner, escreveu sempre português, e nunca portuguez.» —

*       *       *       *       *

Quanto a outras graphias, que possam ferir a vista dos mais ingênuos ou dos menos lidos, julgo inopportuno alargar explicações, não só porque isso me daria volumes e não um prefácio, senão também porque, a tal respeito, creio bem que me não farão reparos os que na matéria têm voto preponderante. Conheço-os, e vou com êlles, salvo discrepâncias adiáphoras.

Mas, de relance ao menos, devo tocar alguns pontos orthográphicos, que poderão acaso sêr pretexto de reparos, aínda da parte do leitor sufficientemente esclarecido.

Refiro-me á apparente antinomia entre as graphias fruto e fructífero, mama e mammífero, etc. Não derivam ellas da minha tendência para a possível simplificação orthográphica: aliás, escreveria frutífero, mamífero, etc., e ficaria em paz com minha consciência. Mas, dês que eu subscrevo nesta obra as praxes mais usuaes, tenho de dizer que a graphia simplificada fruto, mama, gota, cana, etc., está justificada e praticada pela quási totalidade dos bons escritores portugueses, visto que todos escrevem agora, atar, matar, pranto, corda, etc., que teriam de escrever chorda, prancto, mactar, aptar, haghora, etc., se observassem a etymología. Quere dizer: quando uma palavra perde o seu carácter erudito e se torna popular ou vulgar, a orthographia etymológica nem pelos mais intransigentes etymologistas é praticada. A difficuldade está em traçar a linha divisória entre as palavras vulgares e as eruditas; mas, pelo menos com aproximação, quási todos poderão reconhecer num vocábulo o cunho erudito ou a feição popular.

E se, em vocábulos que certos escritores escrevem eruditamente, eu prefiro a fórma phonética, é porque disto me dão exemplo os escritores e diccionaristas mais afincados em processos etymológicos. O Diccionário Contemporâneo por exemplo, tão affeiçoado ás etymologias, que usa abhorrecer e outros exaggerados etymologismos, também usa sete, orfão, santo..., e não sancto, órphão ou orpham, septe..., que seriam as fórmas mais concordantes com abhorrecer; e hábeis latinistas escrevem para as escolas, com approvação official, ditongo, escrita, escritura... Ora, mal avisado andaria se, desacatando tão salutares exemplos, fôsse mais etymologista que os etymologistas e desprezasse as práticas, com que êlles se aproximam do meu ideal de simplificação orthográphica.

Dado o exemplo, e estabelecidos louváveis precedentes em favor da orthographia phonética de muitos vocábulos vulgares, procurei dotar o nosso vocabulário com um pouco de uniformidade e coherência, preferindo as graphias junto, distinto, esperto, estender, espremer, contrato, etc., a contracto, expremer, extender, experto, distincto, juncto, etc., hypótheses, em que as irregularidades, incongruências e contradicções dão vulgaríssimas em diccionários nossos.

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Casos há, em que a fonte latina de palavras nossas exhibe duas fórmas differentes, uma com geminação de consoantes e outra sem essa geminação. Geralmente, o lexicógrapho etymologista prefere a fórma complicada; e assim, vemos nos nossos diccionários sollicitar, porque o latim tem sollicitare. Mas o latim também tem solicitare; e como, entre duas fórmas, a lógica e o bom senso me ordenam que prefira a mais simples, explicado fica porque o Nôvo Diccionário prefere solicitar.

Esta explicação abrange muitos outros casos análogos e revelará que me esforcei por levar um pouco de ordem e coherência á nossa chaótica e maltratada orthographia.

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De acôrdo com a índole e tradições da nossa língua e com os ensinamentos dos bons mestres, nomeadamente Castilho, dei a vários estrangeirismos indispensáveis uma fórma genuinamente portuguesa, substituindo o cotillon, o wagon, o pret, o bonet, pelo portuguesíssimo boné, pelo simples pré, vagão, cotilhão... Não é novidade que mereça prêmio, mas é suscitar, mais uma vez, a necessidade e o dever de não darmos levianamente direitos de cidade àquillo que despreze e não use o legítimo traje nacional.

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Já agora, não farei ponto neste capítulo, sem uma ligeira referência ás terminações verbaes ão e am, e ao suffixo verbal izar.

Aquellas terminações têm variado de fórma no decurso dos tempos; e a Philologia acha-as ambas legítimas, sejam ellas oxýtonas ou paroxýtonas. E, assim, eruditos philólogos escrevem o pretérito louvárão e o futuro louvarão, em quanto outros orthographam louváram e louvarám.

Ao mesmo tempo, o uso mais generalizado apresenta-nos o pretérito louvaram e o futuro louvarão; e, visto que as duas terminações são igualmente legítimas, visto que adopção exclusiva de uma importa dispêndio de accentos num país que tão avesso lhes é, e visto parecer-me útil que a terminação ão pertença em regra ás palavras oxýtonas e a fórmas monosyllábicas, (dão, são, tão), acceito e pratíco o alludido uso, hoje generalizado, de se escrever o pretérito louvaram, o futuro louvarão, o presente dão e são.

A Philologia não soffre com êste uso, e lucra-se alguma coisa, creio, em simplicidade e em coherência.

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Quanto ao suffixo verbal izar, não há grande razão de queixa contra a prática dos nossos diccionários, os quaes felizmente consignam geralmente a bôa doutrina a tal respeito.

Mas é tal a desordem gráphica em grande número dos nossos escritores, quanto ao emprêgo do z e do s intervocálico, que até em Latino Coelho podemos lêr civilisar, realisar, rasão, empreza, graphias certamente indesculpáveis, mormente em escritores de tão elevada e justa reputação como a do grande prosador da Oração da Corôa.

Antolha-se-me portanto que não é ocioso insistir ainda na preconização de uma verdade incontestada: que em bôa escrita portuguesa não há o suffixo isar, mas izar, do grego izein: realizar, civilizar, idealizar...

V - A pronúncia

A fixação e representação da pronúncia é uma das mais graves difficuldades, com que pódem defrontar diccionaristas portugueses. Por uma razão principalmente: porque, tendo sido avessa ao emprêgo da accentuação gráphica a maioria dos nossos escritores, esta ou aquella palavra começou a pronunciar-se de várias fórmas com igual autoridade e, ás vezes, o mesmo pêso de razões; e os próprios diccionaristas, vendo uma palavra sem accentuação tónica, uns a tomaram por esdrúxula, outros por grave. Daqui a Philologia a dizer-nos que se pronuncie aerólito, monólito, quadrúmano, nigromancía, encyclopedía..., e toda a gente, letrada e illetrada, a pronunciar aerolítho, monolítho, nemolitho, quadrumâno, longimâno, prestimâno, nigromância, encyclopédia... Claro é que, quando o uso se impôs despoticamente, e no falar commum se chegou a perder a consciência do preceito scientífico, o diccionarista tem de registar o facto, tal qual elle é, e indicar a pronúncia usual ou vulgar.

Mas, quando se trata da technologia scientífica, nunca é tarde para se corrigirem pronúncias defeituosas ou contradictórias, porque os homens letrados mais facilmente pódem vêr o bom caminho, do que o vulgo inconsciente, rotineiro e caprichoso.

Em sciências naturaes, mormente em Medicina, há irregularidades orthoépicas, que o diccionarista não deve subscrever. Assim, ao passo que todos, letrados e illetrados, dizem anemía, ouve-se muita vez hyperglycémia e pronúncias análogas; e, tendo nós therapía, que é palavra paroxýtona, há muitos médicos que, por hábito ou pelo exemplo de algum confrade illustre, dizem sem hesitar hydrotherápia, electrotherápia. etc. E, a tal ponto se se enraizaram estas contradicções, que um distinto philólogo, referindo-se ao facto, me lembrou a conveniência de accentuar graphicamente o i de therapía, para se frisar bem a recta pronunciação, embora a palavra, como paroxýtona, dispense a accentuação gráphica na sýllaba tónica; e com effeito algumas vezes pratiquei o conselho no segundo volume da obra, porque o primeiro já estava impresso, quando se me dirigiu o alludido philólogo.[5]

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Na moderna technologia scientífica são vulgares aquellas incoherências, abundando as palavras graves ou paroxýtonas, que, rigorosamente, deviam sêr esdrúxulas ou proparoxýtonas: e abundam, mercê principalmente da prosódia francesa, que não conhece esdrúxulos como o português, o castelhano e o italiano. É o que explica a disparatada e vulgar pronúncia de hippodrómo e chrysanthêmo, palavras que, em português, só devem sêr esdrúxulas: hippódromo, chrysântemo; e as variantes prosódicas tacúla e tácula, assécla e ássecla, gôdo e gódo, mêda e méda, labarêda e labaréda, cogumêlo e cogumélo, etc.

O desprêzo do trema tem igualmente produzido interessantes despautérios. Como ai é um ditongo, os diccionaristas viram melaina e mandaram lêr me-lái-na; quando afinal se, quem escreve a palavra lhe pusesse o devido trema, — melaïna, ou a accentuasse, — melaína, os diccionaristas teriam mandado lêr me-la-í-na, e não teriam errado, como erraram.

Na própria modulação das vogaes se reflecte a anarchia, resultante do desprêzo da accentuação gráphica. E, assim, labareda é pronunciada aqui labaréda e alli labarêda; godo, uns o pronunciam gôdo, outros gódo; poia, pronuncia-se na Beira pôia e em Trás-os-Montes póia; o feto, planta, é confundido, na pronúncia, com o feto, embryão, pelos diccionaristas e pelos professores, que nunca ouviram a palavra ao povo e só a conhecem dos livros, — sem accentuação gráphica. Se a tivessem ouvido ao mestre de todos nós, — ao povo, saberiam que feto, planta, é palavra corrente com a pronúncia de fêto. Em todas as províncias se dá àquelle e modulação fechada, e as próprias variantes da palavra confirmam tal modulação: no Minho e nos Açôres, feito; em Trás-os-Montes, fieito, derivação próxima do lat. filictum, e fórma anterior á de fêto. Em parte da Estremadura, é que, talvez por influência dos letrados da capital, algumas vezes se ouvirá féto por fêto. O feito do Minho reflecte-se na toponímia nacional: temos Cancella-dos-Feitos, junto a a Viana; temos Feital, Feiteira, Feitosa, etc.

Nas próprias escolas officiaes, á míngua de accentuação gráphica, ouvi sempre dar a dois conhecidos lagos os nomes de Ladóga e Ónega, quando a sua verdadeira pronúncia é Ládoga e Onéga, tal é a anarchia que tem dominado na orthoépia portuguesa, e que há de embaraçar sempre todos os diccionaristas, a que não falte consciência nem probidade literária.

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Não obstante o cuidado, com que me ufano de têr procedido, confesso que mais de uma vez me vi enredado na difficuldade de indicar a pronúncia de palavras que nunca ouvi, e que nunca vi accentuadas, mormente ao tratar-se de vocábulos brasílicos. A pronúncia de tuiuiu, por exemplo, ¿como poderia sêr representada por quem nunca a ouviu? Escrita assim, tanto se poderia lêr tui-ui-u, como tu-iu-iu, como tu-i-u-iu... Se os que della usaram a escrevessem como deviam, não haveria dúvidas.

Sobretudo de algumas palavras da África portuguesa é até impossível determinar-lhes a verdadeira pronúncia. Por um capricho, difficilmente explicável, os nossos viajantes e exploradores africanistas lembraram-se de representar por M' e por N' o som inarticulado, quási nasal, com que os Landins e outras tríbos africanas acompanham a pronúncia de certos termos: m'pacaça, m'baca, n'guvo, etc. O diccionarista português, que queira indicar a pronúncia de taes palavras, não póde, porque não tem sýllabas nem letras que exprimam o alludido som. O racional seria escrever pacaça, baca, guvo, etc. Não sería representação rigorosa, mas aproximava-se mais da pronúncia local do que as mencionadas fórmas. O M e N, insulados, nada representam. Por isso, bem avisados andam os que escrevem Pungo Andongo, em vêz da fórma bárbara, usada por alguns africanistas modernos, Pungo N'Dongo.

Outra dificuldade occorre ainda, a respeito de pronúncia, ao diccionarista, quando trata de palavras compostas, na technologia scientífica. Primitivamente, a desinência do primeiro elemento dessas palavras é aberta e átona: pàthògenia, hippòdromia, geòdynâmica, neò-céltico, photòsphera, lithòspermo, lithòclase, histògenia, hypèrácido, intèrplanetário, mònòcéphalo, etc. Com o andar do tempo e com a vulgarização do termo scientífico, todas as vogaes secundárias se subordinam á vogal tónica, e temos typographia, morphologia, pathologia, histologia, photographia, geographia, neologismo, intermittente, hyperbólico, monographia, etc., que ninguém pronuncía hypèrbólico, intèrmittente, gèògraphia, phòtògraphia, nèòlogismo, històlogia, pàthòlogia, typògraphia, mònògraphia... ¿Onde acaba o carácter erudito e primitivo da palavra, e onde começa a sua feição vulgar ou popular? Ninguém marcou ainda a linha divisória; e o que hoje é erudito é amanhan popular.

E daqui se infere a difficuldade, se não a desnecessidade, de indicar a pronúncia das vogaes secundárias na maioria das palavras. O ponto capital é a determinação da vogal tónica.

Além do que, a pronúncia do português no Brasil offerece notáveis divergências da nossa pronúncia e, em muitos casos, será diffícil justificar o direito com que pretendamos dar lições prosódicas aos nossos irmãos transatlânticos. Dentro do próprio Brasil, do norte ao sul, há sensíveis divergências na modulação das vogaes átonas. Assim, ao norte, como em Portugal, o o de botar é surdo, pronunciando-se bu-tar; e ao sul é aberto, pronunciando-se bò-tar.

Reduzida, na grande maioria dos casos, a questão da pronúncia á determinação da vogal tónica, naturalmente nos abeiramos do problema da accentuação gráphica[6].

VI - A accentuação gráphica

Muitos diccionários portugueses e estrangeiros representam a pronúncia das palavras, escrevendo-as sonicamente; em português, immaculado é representado por i-ma-ku-lá-du; em francês, marginaire por mar-gi-nêr; em inglês, directory 1 2 2 1 por de-re-k'tu-re.

O systema é admissível e talvez profícuo nas línguas em que se escreve de uma fórma e se lê de outra; no português, parece-me improfícuo e incoherente, se não absurdo. Parte-se ingenuamente do princípio de que o leitor de diccionários não conhece o valor da sýllaba ca, e representa-se cama por esta fórma ka-ma; ora, quem ignora o valor da sýllaba ca, com mais razão devia ignorar o valor da sýllaba ka; mas, se quiser saber lêr kali, acha apenas ká-li, sem que o diccionário lhe diga como se pronuncía a primeira daquellas duas sýllabas.

Se a questão capital é a vogal tónica, dispensemos o inútil e incoherente formulário sónico, e sirvamo-nos dos conhecidos accentos gráphicos, que são prata de casa e bôa de lei, se bem que reduzida e modesta, como de casa que não é rica.

Depois, um português, que consulta o diccionário da sua língua não precisa que lhe ensinem como se pronuncía bello, grande, casa, abril, andar, vestir, campo, etc., etc. A difficuldade reduz-se apenas á correcta pronúncia das palavras agudas e esdrúxulas, (manganés, pállido...), e ainda das graves, em que a vogal tónica tem modulação excepcional, (cêdo, perdigôto...), como das palavras homógraphas, em que a pronúncia diverge, (séde e sêde, rôla e róla, tópo e tôpo, bêsta e bésta...) Para êstes casos, o accento agúdo e circunflexo, e para alguns outros o accento grave e o trema, são elementos bastantes para um regular systema prosódico. Assim o entenderam, e assim o praticaram judiciosamente, os nossos velhos lexicógraphos.

Não me refiro por ora á vantagem ou necessidade da accentuação gráphica na escrita corrente de qualquer obra. Refiro-me exclusivamente ao léxico, em que há necessidade e obrigação de indicar a prosódia.

Como é sabido, e desde longa data, o accento agudo tem servido especialmente para mostrar que uma vogal tem modulação aberta, (avó, rapé, sinhá, séco, bésta...), como o accento circunflexo para mostrar que uma vogal tem modulação fechada, (avô, português, bêsta, sêco...) Para as vogaes surdas e para outros valores do e, não temos, e aínda mal, sinaes diacríticos, bastando-nos todavia a indicação de que o A, o E e o O em sýllabas finaes, desacompanhados de accentos gráphicos, têm modulação surda, e o E antevocálico e não tónico, como em grupos ditongaes, tem o valor de i, como em ideal.

Entre quantos, em Portugal, se occupam hoje da sciência da linguagem, difficilmente se encontrará quem não advogue, para qualquer trabalho escrito, a necessidade de accentuação gráphica dos proparoxýtonos ou palavras esdrúxulas: pállido, tépido, hýbrido, autómato, hippódromo, túmulo...

A divergência está apenas em que alguns eruditos, que eu respeito e estimo, só admittem o accento agudo como sinal de vogal tónica.

E assim, aínda que a vogal tónica tenha modulação fechada, como em esplendido, languido, hellespontico, infancia, êlles accentuam infáncia, hellespóntico, lánguido, espléndido. E contudo aquellas vogaes tónicas têm modulação fechada, e para esta modulação criou-se o accento circunflexo.

Quando digo que a vogal tónica de explêndido, cândido, etc., tem modulação fechada, não ignoro que tal vogal é aberta entre o povo do Minho e em parte da região do Doiro; mas êsse restricto patoá não invalida o que possa dizer-se da orthoépia geral do país. Nem o cáurdo (caldo) e o sourdado (soldado) do povo minhoto; nem o vinégre (vinagre) do baixo Alentejo, nem a epidêmia (epidemía) e o lête (leite) do Algarve, nem o espeilho ou espâlho (espêlho) de Lisbôa e Aveiro, nem o lisboêta riu Tejo (rio Tejo), etc., poderão nunca influir na representação da pronúncia geral do país.

Ora, a questão prosódica não está simplesmente em distinguir-se a vogal tónica; está também em distinguir-se a modulação das vogaes O, E e A; e, se o accento circunflexo fecha a modulação, tenho difficuldade em admittir accento agudo sôbre uma vogal de modulação fechada, como nos exemplos citados.

Bem sei que, por qualquer lado que se procure resolver a questão, a solução nunca será isenta de dúvidas, conhecida a pobreza dos nossos sinaes diacriticos; mas afigura-se-me que, accentuando circunflexamente lânguido, explêndido, etc.; e, sabendo-se que as vogaes O, E, A, quando nasaes, têm sempre modulação fechada, póde concluir-se que o accento circunflexo se empregou, não para indicar a modulação, mas, sim, a vogal tónica.

Eu sei também que na escrita castelhana o accento agudo designa a vogal tónica, e talvez êsse facto influísse na prática de alguns meus illustres conterrâneos. Pondere-se, porém, que a accentuação gráphica estrangeira tem escassa analogia com a nossa; e por isso o espanhol escreve marqués, porque o e é a vogal tónica; e os que entre nós escrevem espléndido não se dedignam de escrever marquês, porque o accento agudo, neste caso, desfiguraria o valor da vogal. Desfigurá-lo-ia aqui, como o desfigura em espléndido.

Tenho porém á mão um argumento, que talvez faça hesitar os mais convictos defensores do accento agudo em qualquer vogal tónica, aberta ou fechada, de palavras proparoxýtonas.

Occorrem-me pelo menos duas palavras, que podem abalar taes convicções: neveda e levedo.

São palavras esdrúxulas, como se sabe. Ora, segundo a theoria dos que só querem accento agudo para a vogal tónica da palavra proparoxýtona, deveriam accentuar-se néveda e lévedo; mas, depois de tal accentuação, toda a gente que não conhecesse taes palavras, lê-las-ia erradamente, porque iria lêr né-ve-da, lé-ve-do, quando afinal essas palavras nunca se pronunciaram nem se pronunciam senão nê-ve-da, lê-ve-do, e assim mesmo as accentuou o bom Roquete, no seu Diccion. Port. Franc.. Creio que tinha muita razão o Roquete, que, apesar de tudo, ainda hoje merece lêr-se. E, se êlle tinha razão, tenho-a eu também.

O que deixo dito de nêveda e lêvedo, é applicável a bêbedo, trôpego, nêspera, côdea, côvado, ênclase, êncero, êulopho, êumeno, êumicro, peixôtoa, serôdio, cômoro, devêramos, fêvera, etc.

Fóra da hypóthese dos esdrúxulos de vogal tónica com accentuação fechada, hypóthese em que talvez seja lícita a defesa de duas opiniões distintas, é muito simples a representação prosódica da linguagem portuguesa, sem recorrer a fallíveis e contradictórios expedientes sónicos.

Em regra, nas palavras graves, a vogal tónica é vogal aberta: soldado, donzella, escola... Portanto, accentuam-se as excepções, quando queremos representar o valor das palavras: trombêta, rôla...; ou, se organizamos vocabulário, notamos essas excepções em parênthese, seguidamente ao vocábulo, assim: — Lobo, (), m. — Etc.

É verdade que pâra, câda e sôbre são palavras que se consideram proclíticas, e que, perdendo por tanto o accento próprio, pela sua subordinação a uma palavra immediata, (para nós, cada homem, sobre tudo), não merecem accento gráphico, no conceito de bons mestres; e, tanta consideração estes me merecem, que não devo esquivar-me a significar-lhes o fundamento da minha insignificante divergência.

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Em primeiro lugar, e sem discutir se pâra deve considerar-se proclítica, porque talvez se possa sustentar que as próclises só se dão nos monosýllabos, (*de* todos, *a* história, *por* Lisbôa), impressiona-me a reflexão de que os leitores, na sua maioria, não são phoneticistas nem se dão ao cuidado de destrinçar próclises e ênclises. De fórma que, devendo o diccionarista representar a modulação excepcional das vogaes tónicas, e não representando o valor da alludida vogal naquellas suppostas proclíticas, o leitor ficaria no direito de lêr pára quando devia lêr pâra, e poderia dizer sóbre quando devia dizer sôbre; e cáda, quando devia dizer câda, etc.; visto que a regra é sêr aberta a vogal tónica da palavra.

Depois, verifica-se um facto, que talvez não seja indifferente á questiúncula: — é que as vogaes e e o das partículas não são fechadas, são surdas, (*por* Deus; *de* Roma). Portanto, se sôbre fosse uma proclítica e tivesse de subordinar-se á regra das próclises monosyllábicas, teriamos de lêr *subre* tudo, o que ninguém acceitaria, é claro.

Mas temos mais. Sôbre nem sempre é palavra dependente de outra. Em náutica designa certas velas: «O vento despedaçou os sôbres». E até em grammática é palavra independente, como quando dizemos: «A palavra sôbre é uma preposição». E isto mesmo se póde dizer de pâra, etc.

E mais ainda: Sem accentuação gráphica, para e sobre podem sêr prepoqsições e podem sêr verbos; mas, independentemente do sentido das respectivas locuções, só o accento gráphico mostrará se são verbos ou preposições.

Quanto ás palavras agudas, toda a gente accentua com razão a vogal tónica, quando não é u ou i, nem anteposta a b, c, d, g, h, l, n, p, r, t, z: manganés, acolá, noitibó.

Como as palavras, em que a vogal da última sýllaba é i ou u, são geralmente agudas, dispensam accentuação gráphica: alli, Paris, Caramuru, alecrim... Portanto, accentuem-se as excepções: tríbu, (que melhor se escreve tribo, sem necessidade de accentuação), Vênus, Sírius, Páris, vírus...

Em regra, as palavras terminadas em r ou l, são agudas: andar, vestir, lupanar, Manuel, funil, batel... Portanto, basta accentuar as excepções: âmbar, açúcar, éther, Aníbal, amável, possível...

Tem proximamente modulação fechada a terminação eis, em geral: reis, seis, achareis, deveis... Portanto, accentúo as excepções: pastéis, coronéis, cascavéis...

Etc.

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Não farei ponto neste árido assumpto, sem alludir a alguns casos, em que parece sêr regra a modulação fechada da vogal tónica: taes são aquelles, em que a vogal tónica é seguida de m ou n: cama, leme, Roma, arcano, pena, dono... Logo, basta que se accentuem as excepções: carbóne, tómo (verbo), mordómo...

Parece, ás vezes, que o m, embora não immediato á vogal, influe no valor della, de acôrdo com a regra citada: ermo, mormo, termo, enfermo, esmo, colmo, torresmo, resma, sesmo... Donde poderá concluir-se que estas fórmas, para bem se interpretarem, não precisam de accentuação gráphica.

Também a vogal tónica do ditongo eu tem geralmente modulação fechada, dispensando accento: meu, teu, vendeu, judeu... Basta accentuar as excepções: céu, mausoléu, mastaréu...

Por algum tempo hesitei sôbre se o o do ditongo oi é, em regra, aberto ou fechado; mas concluí, sem grande difficuldade, que é fechado: foi, moio, dois, oito, arroio, joio, soito, toiro, loiro, vassoira... Donde se infere a legitimidade e a conveniência de accentuarem as excepções: dezóito, herói, jóia, combóio, clarabóia, lóio...

Algumas vezes o accento agudo dispensa o trema, quando póde recair na vogal tónica; em vez de maïça, maíça; em vez de saïda, saída... Fóra da vogal tónica, o trema não tem substituição: saïmento, intuïção, apaülado...[7]

A pobreza de sinaes diacríticos força-nos, por vezes, a usar accentuação gráphica, que não corresponde precisamente ao valor da vogal accentuada. Assim, nas variantes ideia e idéa, usamos na segunda fórma o accento agudo, não só para indicar a vogal tónica, senão também para mostrar que essa vogal tem modulação que não é fechada nem surda, e que a mesma vogal não faz parte de um semiditongo, como em láctea, áurea,purpúrea...

Em todo caso, o accento agudo de idéa, corréa, moréa..., fórmas aliás, a que eu naturalmente prefiro ideia, correia, moreia..., tem um pouco de convencional, como nos casos seguintes: — Estabelecido, como regra, que são graves ou paroxýtonos os polysýllabos terminados em am ou em, (dizem, valem, fazem, ontem, louvam, devem), natural é que se accentuem graphicamente as excepções, (retém, contém, armazém, Santarém, também, ninguém...) Raros serão os polysýllabos terminados em om, mas, dêsses, não conheço nenhum que não seja oxýtono, dispensando-se por isso a final accentuação gráphica.

No mesmo caso estão os polysýllabos terminados em im e um, que, em português corrente, são sempre oxýtonos: Joaquim, nenhum, fartum, pingalim... Não exigem accento gráphico. As palavras terminadas em en, in, on e un, são avêssas á tradição da língua e, geralmente, só se usam em palavras eruditas ou scientíficas, e nunca são oxýtonas: órion, líchen, certâmen, abdômen... Estas duas últimas fórmas, e suas congêneres, ficarão mais portuguesas, se lhes dispensarmos o n final, como se fez ao nome, ao lume, ao crime...

Visto que em fórmas verbaes de terminação nasal há muitas vezes coincidência phonética de singular e plural, pareceu-me acceitável o uso do circunflexo para distincção do plural, visto que o accento agudo já tinha a funcção de designar o oxýtono. Verbi gratia: «Contem, meus senhores, o dinheiro que êste cofre contém e não se importem do que as gavetas contêm.» Convenção, é claro, mas certamente útil, se não necessária.

Verdade é que alguns escritores e grammáticos distinguem, naquella hypóthese, singular e plural, com a inclusão de um e: «Êlle tem, êlles teem.» Outros, talvez mais acertadamente, nasalam graphicamente o primeiro e daquelle plural, e escrevem t[~e]em, cont[~e]em... Parece-me todavia que a distincção phonética, entre o singular e o plural, não existe na linguagem commum ou vulgar: todo povo, e talvez muitos eruditos, dizem simplesmente: «Êlle tem, êlles têm; êlle contém, êlles contêm.» E, neste caso, a distincção dos números verbaes parece-me vantajosamente indicada com os signaes, que acompanham os exemplos alli consignados.

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Além da vogal tónica, algumas vezes é mister accentuar a vogal átona, não já servindo-nos do accento agudo, mas do grave. Corado poderia ler-se erradamente cu-ra-do, se não accentuássemos còrado; pegada, (pé-gá-dâ), lêr-se-ia erradamente pegada (com pe surdo), não se pondo accento grave na primeira sýllaba, (pègada). O accento agudo, em tal caso, tornaria tónica a primeira sýllaba, convertendo em esdrúxula uma palavra que é grave.

O accento grave significa, pois, que a respectiva vogal é aberta, mas não tónica.

Na accentuação, porém, das sýllabas átonas, o diccionarista deve manter a mais discreta sobriedade, por motivos de vária índole.

Em primeiro lugar, entre cêrca de quarenta milhões de indivíduos que falam o português, em todas as partes do mundo, há profundas dissidências orthoépicas, que seria ocioso corrigir ou capitular de erróneas. Sobretudo, entre Portugal e o Brasil, as variantes orthoépicas são numerosas e conhecidas. Dentro do próprio Brasil, como já notei, a pronúncia não é uniforme.

Depois, nas palavras compostas, de formação erudita, é assombroso o quadro das irregularidades e divergências prosódicas, como também já notei.

Em taes casos, portanto, o que prevalece é a natural evolução phonética e a soberania do uso, que não o arbítrio ou a opinião do diccionarista.

Limitada, em geral, a representação prosódica do vocabulário á accentuação gráphica da vogal tónica, pareceu-me vantajoso que, na definição ou noção de vocábulo, como em qualquer escrita corrente, se reproduzam os accentos indicados no vocabulário: não é só o leitor de um diccionário que tem direito a saber o valor prosódico de uma palavra; qualquer leitor de prosas ou de versos deve vêr no que lê a indicação clara do valor phonético de cada termo.

É verdade que, em tal matéria, e dada a possibilidade de divergências fundadas ou infundadas, o diccionarista nada impõe: propõe.

Na sua qualidade de proposta, a accentuação gráphica, adoptada pelo autor na generalidade dos seus escritos e apontada no decurso desta obra, pouco terá com a essência do diccionário, — que póde sêr bom ou mau, independentemente daquelle ponto de vista.

O autor propõe; os mais entendidos e o público dispõem.[8]

VII - A etymologia

Para o commum dos leitores, não tem elevado valor a parte etymológica de um diccionário; mas, para a história da língua, para o estudo da linguagem e para a correcção da escrita, a etymologia é elemento de primeira ordem e tem merecido tal cuidado aos cultores e mestres da Philologia moderna, que já hoje constitue um dos ramos capitaes desta sciência, se é que não constitue já uma sciência, por si própria.

Mas, tão grande como a importância da etymologia, é a difficuldade que o seu estudo offerece a todos, mormente aos que não são polyglottas. Direi, até, que o verdadeiro etymologista deveria sêr mais do que polyglotta: deveria sêr panglotta, se me permittem o termo; e os que curam de Philologia sabem que não é exaggerado o asserto.

Ora, eu ignoro, — como a maior parte da humanidade e, até, como quase todos os diccionaristas do mundo, — o japonês, o cingalês, o malaio, o persa e, muito mais aínda, o quichua, o caraíba... E, contudo, os diccionários, em que se procura consignar a etymologia do vocabulário, têm de referir-se àquellas fontes, sem que os autores possam verificar a exactidão de uma filiação registada.

Daqui, um facto interessante e vulgaríssimo: é que cada dia se fazem novos, descobrimentos no campo etymológico, e que a origem, designada hoje a uma palavra pelos patriarchas da lexicographia, é amanhã rejeitada pelo descobrimento de um facto, que vem accrescer aos recentes progressos da Philologia.

Não obstante a extensão e a variedade dos trabalhos a que me aventurei na organização do vocabulário, e não obstante a estreiteza do tempo e a escassez dos recursos, não descurei a parte etymológica desta obra, consultando as fontes que mais autorizadas se me affiguravam, — Diez, Meyer-Lübke, Littré, Freund, Dozy, M. Bréal, e outros, não falando de alguns esclarecimentos eventuaes, que directamente recebi de illustrados arabistas e romanistas.

Succede porém que, num ou outro ponto, nenhum daquelles mestres disse a última palavra da sciência; e, se alguma vez erraram, com mais attenuantes eu terei errado, reproduzindo êrro alheio. Mas não é grande desaire errar em companhia de primates, que se chamaram Dozy, Littré...

De minha exclusiva responsabilidade é a indicação da origem de numerosos vocábulos, que eu nunca vi noutros diccionários, nacionaes ou estranjeiros; e aínda de alguns outros termos, como dramadeira, drusa, machada, malagueta, marrafa, marachão, trintanário, moita, matulagem, saloio, etc., etc., que são vulgares noutros diccionários, mas á cêrca das quaes eu indico origens que aínda não vi registadas por ninguém.

Como em geral, num diccionário, a parte mais susceptível de imperfeições, é a etymológica, e como, logo depois de impressas as primeiras fôlhas desta obra, eu próprio reconheci que a opinião de mestres, subscrita por mim, tem sido, num ou noutro ponto, rectificada pelo progredimento dos estudos philológicos, algumas rectificações adduzi em Supplemento, documentando o sincero empenho de acertar, e de servir, como em mim caiba, as letras da minha terra.[9]

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Ainda na parte etymológica do Diccionário, há um ponto a que entendo dever referir-me: é a representação, em caracteres românicos, de termos pertencentes a idiomas de povos que, como os Tupís, nunca tiveram língua escrita, e de outros, cujos caracteres alphabéticos pouco ou nada têm de commum com os nossos.

A representação do tupi e aínda do árabe, por exemplo, tem de sêr feita, aproximadamente pelo menos, consoante a pronúncia de quem os falou ou os ouviu. Para a representação do tupi temos no Brasil os subsídios de Gonçalves Dias e de outros estudiosos; e para a representação do árabe, — visto que, num diccionário de uso geral, não sería opportuna a reproducção de caracteres alheios aos nossos, — temos os subsídios de Dozy. Mas, apesar da autoridade do grande arabista, algumas vezes simplifiquei as suas fórmulas, por me acostar ao conceito de hábeis arabistas nossos que, na representação de muitos termos árabes, dispensam certos grupos consonantes que, em português, nada exprimem do como devemos pronunciar o árabe.

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Na representação das próprias palavras gregas, por mais próximo que seja o seu parentesco com as nossas, é sabido que há mais de um systema de as representar em caracteres românicos, e que a diversidade da representação não depende pouco da diversidade dos systemas da pronúncia. Geralmente, nos estabelecimentos de ensino, creio que prevalece a pronúncia erásmica, o que não quere dizer que nalguns casos se não pratique a pronúncia reuchliniana.

Em todo caso, não é problema simples, e, para o aligeirar um pouco, muitos escritores têm lançado mão dos accentos, agudo e circunflexo, para melhor significarem a pronúncia que defendem.

Por minha parte, tendo ouvido pronunciar grego a portugueses e estrangeiros, nomeadamente a alemães, eu, que não sou hellenista, confesso ingenuamente, que não assentei parecer sôbre a preferível pronúncia do grego. É por isso que, na representação de palavras gregas, eu, em geral, dispenso propositadamente a accentuação gráphica, porque o vulgo não ma exige e os conhecedores do grego lerão como lhes aprouver.

Parece que no grego clássico o úpsilo tinha proximamente, se não exactamente, o valor do u francês. Pelo menos, é êsse o conceito dos phoneticistas discípulos de Erasmo. Por isso, e porque o nosso phantástico y, falsamente chamado i grego, escassa estima merece, represento sempre o úpsilo por u, e nisto vou de acôrdo com a prática de quem mais sabe, embora em desacôrdo com a de talentosos hellenistas.

VIII - A grammática

Desde que se divulgou a notícia do próximo apparecimento do Novo Diccionário da Língua Portuguesa, mais de um dos meus futuros leitores me perguntou se a obra seria precedida de algumas noções grammaticaes. Nessa pergunta vinha insinuado um desejo, mais ou menos justificável.

É verdade que alguns lexicógraphos escreveram de grammática á entrada dos seus diccionários; mas êsse facto, de reconhecida conveniência em tempos que raros compêndios grammaticaes nos deixaram, não legitimaria hoje a reiteração de tal processo.

Por duas razões, ou por duas ordens de razões, não trato aqui de grammática:

Primò: — A grammática, como ella geralmente tem sido considerada até hoje entre nós, isto é, como estudo das leis que regulam a linguagem, não me mereceu nunca entranhado affecto, por me parecer circunscrita no domínio de uma casuística, sem vantagens immediatas para o conhecimento prático da língua. Os bons escritores nunca o fôram por haver estudado compêndios de grammática; e não será ocioso reiterar a consideração, que já fiz algures, de que os grandes grammáticos raramente terão sido grandes escritores.

Na ordem chronológica, o escritor precede o grammático. O escritor consigna factos, constituídos pela gênese, pela índole e pela evolução phonética e morphológica da língua. Vem depois o grammático, e deduz dêsses factos theorias e systemas, que êlle arvora em códigos, mais ou menos fallíveis, mais ou menos incompletos. Observam-se então interessantes antinomias: factos de bôa linguagem portuguesa, que não são grammaticaes; e expressões grammaticaes, que não são portuguesas.

Secundò: — A população escolar, e aquelles que, para o estudo da língua, têm a ingenuidade de procurar grammáticas em vez de procurar os bons escritores, não lutam hoje com a deficiência de compêndios, como nos tempos idos, desde o João de Barros e o Fernão de Oliveira até o Lobato e o Madureira Feijó.

Verdade é que nem tudo, que se diz Grammática, é recommendável; mas não é diffícil a escolha. Houve um professor erudito, Augusto Epiphânio, que, nacionalizando o velho Madvig, — velho, porque escreveu há sessenta annos, — supplantou sediças convenções, e, levando um pouco de crítica e de rigor scientífico á cáthedra escolar, expôs, sob novo aspecto, as leis que pôde deduzir dos factos da língua.

Entretanto, a Philologia erguia-se vigorosa, impunha-se aos grandes centros scientíficos, e ampliava a grammática, do estudo das leis, á exegese dos factos da linguagem, alargando e aprofundando os domínios da Phonética, fazendo a anatomia morphológica das línguas e expungindo, em nome da sciência, convenções que a ignorância ou a rotina consagraram.

Sob êste ponto de vista, — triste é dizê-lo, — antecipou-se-nos o Brasil, onde, há annos já, a Philologia vingou em bons frutos, mercê de talentos claros e renovadores que, antes de nós, comprehenderam e perfilharam o movimento operado pela Philologia na esphera das sciências modernas.

Não chegámos cedo, mas chegámos: hoje, aí temos um largo e vigoroso ensaio de renovação dos estudos grammaticaes, na Grammática Portuguesa do esclarecido Lente universitário, Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos.

Não quero eu dizer que esta Grammática seja trabalho completo e impeccável: os grammáticos de profissão hão de discutir, e rejeitar talvez, um ou outro conceito, uma ou outra deducção. Mais philólogo que grammático, o autor devia têr-se visto enredado na trama subtil, e ás vezes traiçoeira, dos velhos casuístas; mas, no conjunto do seu trabalho, e nomeadamente na Phonética, e ainda na Morphologia, abre horizontes novos aos estudiosos, insiste no estudo e crítica dos phenómenos da linguagem, e corrige numerosos erros, até hoje correntes na escrita nacional.

Em Portugal pois, e cada uma sob o seu ponto de vista, a Grammática de A. Epiphânio e a de Ribeiro de Vasconcelos, podem prestar ensinamentos mais valiosos do que os que por mim poderiam sêr communicados aos que de mim desejam lições de grammática.

Os meus leitores no Brasil, que não conheçam as alludidas grammáticas, lá têm ao seu alcance excellentes subsídios grammaticaes nos escritos de Júlio Ribeiro, Augusto Freire, João Ribeiro, Sotero dos Reis, Lameira de Andrade, Baptista Caetano, Pacheco da Silva e tantos outros.

Bem sei que as Grammáticas e os tratadistas da linguagem não prevêem nem destrinçam todas as dúvidas que possam occorrer a estudiosos e, mais ainda, aos que, pouco lidos embora, não desejam errar. Sobretudo a syntaxe e as flexões dos verbos irregulares nunca hão de sêr isentas de travancas e dúvidas. Para taes casos, nada há melhor do que o exemplo e a leitura dos mestres que tal nome mereçam. E não será mister lê-los todos: quem dos antigos conhecer bem Thomé de Jesus, Luís de Sousa, Bernárdez e Vieira, e, dos modernos, Herculano, Latino e Castilho; quem, na expressão falada e escrita, se não afastar da prática dêlles, póde estar tranquillo, porque falará e escreverá português ás direitas, sem perigo dos fáceis e vulgares extravios de quem fala e escreve, mais do que lê onde deve lêr.

Para hypótheses insuladas ou fortuitas e para indicação prática dos precipícios que podem colher incautos, aí estão os volumes de Lições Práticas da Língua Portuguesa, escritas pelo autor dêste Diccionário, e cuja extracção em Portugal e no Brasil me convence de que essoutro trabalho meu não foi inopportuno e inútil.

Lisbôa, 10 de Março de 1899.

C. de F.


Notas:

[1] De passagem advertirei que ao diccionarista consciencioso mais de uma vez se deparam difficuldades no registo dos vocábulos brasílicos. Como os Tupis não tinham língua escrita, muitos vocábulos, que delles procederam, apparecem hoje escritos por mais de uma fórma, segundo o arbítrio de quem escreve. Assim é que, — referindo-me apenas a alguns vocábulos da letra G, — vejo na imprensa do Brasil as variantes gopiara e gupiara, gariroba e guariroba, gurandirana e guarandirana, gurejuba e gurijuba, guaiamum e goiamum, goiaba e guayaba (fórma preferida por Beaurepaire-Rohan), etc.

Sobretudo longe do Brasil, não é nada fácil decidir qual das variantes de um vocábulo brasílico é a exacta ou, pelo menos, a preferível. Em taes condições, julgo que andei bem avisado, registando as variantes que se me depararam, e remetendo o leitor para a fórma vocabular, que mais corrente se me afigurava. A exegese dos eruditos brasileiros, — que os há e muitos, — poderá resolver a dúvida em última instância, e os seus acórdãos acatarei como devo.

(Nota desta 2ª edição).

[2] O finado proprietário da casa editora Tavares Cardoso & Irmão, Sr. Avelino Tavares Cardoso.

[3] Sobretudo nesta nova edição, embora succintamente, pude abonar com textos dos mestres o emprêgo e as accepções de milhares de vocábulos menos vulgares, ou pouco conhecidos; e rara é a pagina, em que certas accepções vocabulares não sejam acompanhadas de exemplos, — o que sem dúvida representa um dos mais sensíveis melhoramentos desta edição.

(Nota desta nova edição).

[4] Escrevia-se isto em 1899. Annos depois, foi officialmente adoptado um processo orthográphico de simplificação, que aboliu as consoantes geminadas, o y, o k, os grupos ph, th, rh, ch (=k), etc. Nesta nova edição portanto, a par das palavras que, etymologicamente e segundo o uso, tem consoantes geminadas, regista-se a correspondente fórma simplificada.

(Nota da nova edição).

[5] Cf. C. de Figueiredo, Vícios da Linguagem Médica, 1 vol. de 291 pág. Lisboa, 1910.

(Nota desta nova edição).

[6] A propósito da orthographia portuguesa, deu-se, entre a 1ª e 2ª edição do presente Diccionário, um acontecimento memorável, que me cumpre registar neste ponto.

Em Portaria do Govêrno, de 15 de Fevereiro de 1911, foi nomeada uma Commissão, encarregada de fixar as bases da orthographia que deve sêr adoptada nas escolas e nos documentos e publicações officiaes. Essa Commissão era composta de D. Carolina Michaëlis, Gonçalves Viana, Candido de Figueiredo, Adolfo Coelho, Leite de Vasconcelos, e foram-lhe depois aggregados Ribeiro de Vasconcelos, Gonçalves Guimarães, Epifânio Dias, Júlio Moreira, J. J. Nunes e Borges Graínha.

Essa Commissão, em 23 de Agosto do mesmo anno, apresentou o seu relatório, firmado pelos vogaes residentes em Lisbòa, com prévia audiência e assenso dos vogaes ausentes; e dias depois, em Portaria de 1 de Setembro, mandava o Govêrno que a reforma ortográphica, proposta naquelle relatório, fôsse adoptada nas escolas e nos documentos e publicações officiaes.

Eis a súmmula desta reforma, ou a sýnthese dos seus pontos capitaes:

1º — Não se duplicam consoantes. — Portanto, beleza, aprovar, imediato, abade, Melo, Matos, Mota...

2º — Simplificam-se e substituem-se os grupos ph, th, rh, ch (com o valor de k). — Portanto, filosofia, teatro, reumatismo, quimera, química, corografia.

3º — Não se emprega y, nem k, nem w. — Portanto, lira, martírio, calendário, Venceslau... Exceptuam-se só os vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros, como byroniano, kantismo, wiclefitas...

4º — Dentro de vocábulos não se escreve h. Portanto, inerente, inibir, inábil, compreender, inumano...

5º — Os ditongos oraes, ae, áo, éo, óe, substituem-se por ai, au, éu, ói. — Portanto, pai, pais, jornais, marau, chapéu, herói, anzóis...

6º — Evitam-se consoantes inúteis. — Portanto, escritura, escritor, escultura, distrito, salmo, luta...

Exceptuam-se os casos, em que a consoante, embora se não pronuncie, tema a utilidade de significar que é aberta a vogal que a precede, como em exceptuar, rectidão, redacção, direcção, actor, etc., e nos vocábulos das mesmas familias: excepto, recto, redactor, directo, actuar...

7º — O pronome pessoal enclítico lo liga-se aos verbos por um traço. — Portanto, tu faze-lo e eu não posso fazê-lo; louvá-lo; ouvimo-lo...

8º — O emprêgo do s e do z é regulado pela etimologia e pelas tradições da língua. — Portanto, português, francês, cortês, freguês, defesa, empresa; e ao mesmo tempo, natureza, beleza, civilizar, realizar, organizar, vez, talvez... Em caso de dúvida, há ainda o recurso dos bons diccionários e vocabulários, organizados depois que é conhecida entre nós a sciência da linguagem, isto é, nos últimos vinte ou trinta annos.

9º — Escreve-se igreja, idade, igual.

10º — Acentuam-se graficamente todos os vocábulos esdrúxulos. — Portanto, pálido, túmulo, crisântemo, lêvedo, hipódromo, velódromo, diário, África... Acentuam-se os homógrafos, não homofónicos, pois há séde e sêde, govérno e govêrno, dúvida e duvida, etc. O acento grave pertence ás vogais abertas, não tónicas. Portanto, còrado, prègador, pègada... E também se póde empregar para desfazer ditongo, como em proìbir, miùdamente; e para mostrar que o u se pronuncia depois de g ou q, como em agùentar, freqùente... (quando convenha representar a pronúncia, especialmente no ensino primário).

Esta reforma entrou immediatamente em execução, e, felizmente, ainda fóra dos domínios officiaes, está sendo espontanea, e, mais ou menos rigorosamente, praticada por numerosos publicistas e jornalistas.

Para a sua melhor execução, publicaram-se dois vocabulários, o de Gonçalves Viana e o de Xavier Rodrigues, sob os auspícios da Commissão reformadora.

Como subscritor da reforma e velho propangandista da simplificação orthográphica, recebi conselhos e pedidos, para que a nova edição do presente diccionário se subordinasse inteiramente a essa reforma, na disposição alphabética dos vocábulos e na matéria do texto.

Bem intencionadas eram decerto essas solicitações; e, se a presente edição se fizesse daqui a dez ou vinte annos, é natural que os factos me levassem a acceitá-las e a deferí-las, visto que, segundo creio, dentro de alguns annos, a simplificação orthográphica, sem demasias irritantes e sem radicalismos nocívos, será naturalmente dominante em Portugal e no Brasil, e os diccionários de então deverão subordinar-se aos factos.

Mas os factos de hoje aconselham outra coisa. Como se não trata de um simples vocabulário de propaganda, mas de um diccionário da língua, a cujo autor impende o estricto dever de representar a actualidade gráphica do idioma, imprudência sería tomar como enraizada desde já, e geralmente, a simplificação orthográphica, e fazer de conta que não existiram as graphias de Herculano, Castilho e Latino, e ainda as da maioria dos que, no momento actual, escrevem português, aquém e além do Atlântico.

Um diccionário tem de sêr o registo dos factos da língua; e os factos são que a chamada até agora orthographia usual é por ora aceita, e sê-lo-á, por algum tempo, pela grande maioria dos que escrevem. Bastará ponderar-se que, embora a Academia Brasileira haja preconizado e praticado já uma reforma, que essencialmente não differe da portuguesa, a maioria dos milhões de indivíduos que na América falam a nossa lingua, ainda não praticam a simplificação adoptada pelo Govêrno português e pela Academia Brasileira.

Ora, um diccionário é livro para todos, e tem de subordinar-se aos factos mais geraes da língua; pelo que, tenho de manter a orthographia mais usual, á parte as fórmas erróneas, que procuro corrigir. Mas, como também é um facto a adopção official da orthographia simplificada e a adopção della, por parte de muitos e autorizados publicístas, registo a par as fórmas usuaes e as fórmas simplificadas, sempre que o vocábulo é susceptível de variantes legítimas: philósopho e filósofo, lyra e lira, theatro e teatro, Chímica e Química, inherente e inerente, etc.

Assim, encontra aqui o leitor as fórmas mais usuaes entre os escritores modernos; e o partidário menos perito da simplificação orthographica encontra, a par daquellas fórmas, as fórmas simplificadas, quando as usuaes possam sêr substituidas por fórmas simples.

De maneira que, sob êste ponto de vista, a obra deverá satisfazer os etymologistas, os usualistas, os simplificacionistas e todos os que queiram vêr registadas as graphias que mais lhes aprazam, sob a condição de serem legítimas.

(Nota da presente edição).

[7] A última reforma orthográphica, approvada officialmente, preceituou, por maioria de votos da Commissão reformadora, que em vez de trema, se use acento grave. É respeitável o preceito, mas achará difficuldades, que o trema não encontra.

(Nota desta nova edição).

[8] De acordo com a última reforma orthográphica, a que também está ligada a minha responsabilidade, simplifiquei um pouco, nesta nova edição, a accentuação gráphica, fóra dos casos em que ella é da maior vantagem, como nos vocábulos esdrúxulos, nos termos homógraphos mas não homophónicos, (sêde e séde, vária e varía), etc.

E assim também, como seja regra que é fechada a vogal tónica da desinência oso, formoso, idoso, etc., julguei aqui dispensável a accentuação gráphica e até a indicação parenthética do valor da vogal tónica. Como é regra sêr aberta a vogal tónica da desinência osa, (formosa, rosa, etc.) acentuo as excepções: espôsa, etc.

Da mesma fórma, sendo geralmente fechadas as vogaes tónicas das desinências or e er, (senhor, compor, doutor, comer, dizer, perder), acentuo graphicamente as excepções: majór, melhór, colhér, malmequér...

(Nota desta nova edição.)

[9] Nesta nova edição, novos e numerosos melhoramentos e correcções recaíram na parte etymológica, que também foi simplificada, restringindo-se ás fontes próximas, e pondo de lado as remotas, que só podem interessar a philólogos e não ao commum dos leitores.

(Nota desta nova edição).